Calexico-Friday Harbor

O rio colorado antes de entrar no Grand Canyon. Foto Margi Moss

O rio colorado antes de entrar no Grand Canyon. Foto Margi Moss

18 de maio – 15 de junho, 1997

Rota: USA:- Calexico, Imperial Valley, San Diego, Grand Canyon, Page, Farmington, Death Valley, Mammoth Lakes, Santa Rosa, Cloverdale, Eureka, Seattle (Boeing Field), Friday Harbor

Desde o início da viagem, sabíamos que um dos maiores obstáculos que enfrentaríamos seria a travessia da fronteira entre o México e os Estados Unidos. Vários pilotos centro e sul-americanos nos preveniram da atitude “culpado até que provada a inocência” da alfândega americana perante os aviões leves vindo de países latinos. “Batata”, pensamos, “vão desmontar o avião todinho…” Vários pilotos americanos que conhecemos na Baixa Califórnia nos aconselharam que os trâmites seriam mais fáceis se atravessássemos a fronteira entre Mexicali (México) e Calexico (Califórnia) — reparem o jogo nos nomes destas duas cidades. Nossa solicitação a San Diego para atravessar a fronteira foi logo aprovada, mas fomos obrigados a esperar uma hora inteira antes de decolarmos com destino a Calexico, meros 10 minutos de vôo. Nenhum avião pode cruzar a fronteira sem dar aviso prévio de uma hora. Desobediência às determinações pode ter conseqüências graves que variam desde uma multa pesada ao pousar ou simplesmente ser alvejado!

Quando finalmente saímos de Mexicali, chamamos Calexico repetidamente no rádio, sem resposta. Ficamos com receio de entrar no espaço americano sem falar com ninguém. Consultamos o controlador mexicano pela rádio. Ele avisou que após as 17 horas, simplesmente não haveria ninguém na radio de Calexico! Ficamos incrédulos. Estávamos atravessando a tal fronteira tão delicada, chegando num “aeroporto internacional”, e o operador de rádio já foi pra casa? Enfim, pousamos na pista insignificante de Calexico e taxiamos até a barraca da alfândega. Um agente se aproximou do avião. Ficamos felizes de ver que ele tinha um nome hispânico. Ele deu uma olhada rápida na bagunça espalhada pela cabine – bagagem, mapas, papéis e equipamento de camping – e nos levou ao escritório para fazer a papelada. E foi só!

Após uma visita relâmpago a San Diego, onde anos atrás Gérard aprendera a voar, aproamos para as paisagens mais famosas dos Estados Unidos. Passamos pelo Lago Powell, formado por uma barragem no rio Colorado, onde morros estéreis e falésias despencam nas águas turquesas. Four Corners é o único lugar nos Estados Unidos onde quatro estados (Arizona, Utah, Colorado e New Mexico) se encontram. Cultivamos uma noção romântica de que “Four Corners” seria um ponto significativo em nosso objetivo de alcançar os quatro cantos do continente americano. Porém, a placa de bronze que marca o ponto de encontro dos quatro estados fica num estacionamento cercado por barracas que vendem lanches e souvenirs. Já era o espírito indomável do “Wild West” que outrora soprava por esta planície.

Ficamos aliviados ao subir no platô de Mesa Verde (Colorado) e contemplar as aldeias milenares dos índios anasazi. Por motivos ainda não esclarecidos, os anasazi construíram suas casas de pedra nas falésias de vários barrancos na região. Desciam as encostas perigosas para chegar em suas aldeias escondidas usando buraquinhos cavados nas falésias para colocar as mãos e os pés.

Na tentativa de sobrevoar o Grand Canyon, não tivemos sorte: os céus estavam carregados e ventos de 20 nós, com rajadas de até 35 nós, açoitavam a região. Uma chispa de sol deslizava para dentro do cânion, onde o rio Colorado ia do azul ao vermelho, e daí para o marrom.

O vôo exigiu muita concentração, para evitar todos os aviões leves e helicópteros que estavam voando em passeios turísticos. Há restrições severas de vôo na área e é preciso ter até uma carta aeronáutica específica. Hoje em dia, não é permitido voar dentro do cânion. Gérard lutou contra fortes chuvas de granizo, sem falar da turbulência, das rajadas e das correntes ascendentes. Jogada pra cima e pra baixo como uma pipoca, tentei filmar e tirar fotos. Apenas consegui machucar o nariz, as sobrancelhas, as lentes das câmeras e o teto do avião!

O cenário mudou em Death Valley (Vale da Morte), com seu habitual céu azul. Em 1990, quando demos a volta ao mundo, já voáramos abaixo do nível do mar, acima do Lago Assal, no Djibuti, na África. Ali, ficamos a quase 500 pés negativos, dentro de uma bacia pequena, e aprendemos que, em tais condições, o motor do avião sobre-esquenta facilmente. Death Valley é bem mais largo e comprido (150 milhas) do que o Lago Assal. Nos divertimos dando rasantes com o altímetro marcando 100 pés negativos acima da superfície do lago salgado — um mosaico de areias de cores diferentes, que ficam ainda mais bonitas com os desenhos deixados pelos rios de água inesperada. O aeroporto fica 214 pés abaixo do nível do mar. Deixando Romeo colado ao asfalto escaldante, fomos a pé até “Furnace Creek Ranch” (Rancho do Riacho do Forno, um nome bastante apropriado), onde hoje existe um hotel. As montanhas que surgem atrás do hotel são as “Funeral Mountains” Em pleno verão, a temperatura facilmente passa dos 50°C.

Na cidade de Glen Ellen, na Califórnia, Bernie e Kat Krause foram nossos pacientes anfitriões por dez dias, enquanto Gérard trabalhava diariamente no aeroporto de Cloverdale para completar mais um serviço de manutenção. Desde a saída do Rio de Janeiro, já voamos 165 horas e agora fazemos os preparativos para o que consideramos a parte mais difícil da viagem. É curioso: os pilotos americanos encaram um vôo para o Alaska como uma boa aventura, mas consideram que qualquer lugar ao sul da fronteira dos Estados Unidos seja uma perigosa terra de ninguém, povoada por traficantes e bandidos. Para nós, é o contrário: estamos à vontade em qualquer país latino-americano, mas temos receio do norte, onde esperamos enfrentar os trechos mais perigosos dessa viagem (não pelos homens, mas pelas forças da natureza).

Todos os pilotos e o pessoal aeroportuário por onde passamos na Califórnia, além de estranhar a matrícula PT, dificilmente acreditam que nosso Sertanejo foi fabricado no Brasil. Mas a beleza do Romeo foi cativando corações, mesmo com a forte concorrência nos Estados Unidos! Ao terminar a manutenção do motor, tivemos que sair voando — literalmente — para chegar a Seattle.

Pousados no aeroporto de Boeing Field, a 10 minutos do centro da cidade, admiramos a fila de Boeings 0-km do outro lado da pista. E cedo, no dia seguinte, por cortesia do Philippe da Microsoft (uma amizade que brotou através de nosso website), estávamos na fábrica atual da Boeing, em Everett. Imperdível para quem gosta de aviões e quer se afogar em estatísticas. É simplesmente o prédio de maior volume do mundo, e cobre uns 42 hectares abaixo de um único teto. Uma caminhada por volta do ‘hangar’, onde são construídos os Boeings 747, 767 e 777, corresponde somente a 2,3 quilômetros! As portas de entrada de cada seção do hangar são do tamanho de um campo de futebol. Caberiam 911 quadras de basquete no chão. Em cada turma, trabalham 9.000 pessoas. Um motor de 777 pesa 8.5 toneladas (mais de 5 Romeos). A conta anual de luz é de US$16 milhões. Por aí vão as estatísticas mirabolantes…

As Ilhas San Juan ficam numa encruzilhada entre o Puget Sound, o Estreito de Geórgia e o Estreito de Juan de Fuca, bem na fronteira EUA/Canadá. Três famílias de orcas residem na área. Nesta época do ano, se alimentam dos milhões de salmões que chegam para pôr ovos nos rios cristalinos da Colômbia Britânica. As temidas “baleias assassinas” na verdade não são baleias. Pertencem à família dos golfinhos, o que fica bem aparente pelos movimentos que fazem na água. A parte dorsal de cada orca difere tanto de uma para outra, que todas já foram identificadas e receberam nome. Os filhotes passam a vida toda com a mãe. A relação com a mãe é tão forte que quando ela morre (veja bem, elas podem ultrapassar os 80 anos!), os filhotes sofrem de tristeza. Foram justamente os chamados clãs de orcas pacíficas que residem aqui que foram alvejados nos anos 60 e 70. Os filhotes foram capturados para abastecer os circos aquáticos da Flórida e da Califórnia e para serem treinados para usos nefastos pela Forças Armadas. Somente agora, 20 anos mais tarde, é que as famílias estão, aos poucos, se recuperando.

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